Vida

 

A ARTE DE VIVER E A MEDICALIZAÇÃO DA VIDA

 

 

O desenvolvimento das pesquisas em biologia e neurociências, particularmente a partir de meados do século XX, deu novo impulso à discussão de que os acontecimentos da vida podem ser descritos a partir do funcionamento de questões orgânicas.

Busca-se explicações para os sofrimentos psíquicos, para as questões de aprendizagem e outras levando em consideração fundamentalmente o funcionamento de nosso cérebro. É como se o viver e nossas ações pudessem ser decifrados apenas a partir da genética, das células e da química.

Há uma forte expansão do mercado de medicamentos e, a poderosa indústria farmacêutica criou um império – midiático em geral e de pressão sobre os médicos em particular – com o intuito de produzir na sociedade o discurso da doença apenas como biologia e incentivar a uma completa medicalização da vida.

Os grandes laboratórios travam guerras entre si oferecendo vantagens para os médicos que prescrevem o uso de seus medicamentos e inundam nossas vidas com centenas de remédios com fórmulas idênticas e rótulos diferentes ensinando-nos, através da propaganda, quais são as doenças da vida moderna, como reconhecê-las, como explicar os sintomas ao médico e sugerir o tratamento; assim como fazer a automedicação em casos mais simples.

 

No Brasil, onde há uma prescrição indiscriminada de tranquilizantes e não existe um controle adequado sobre a comercialização destes medicamentos, houve um aumento de 42% nas vendas dos calmantes benzodiazepínicos, como Rivotril, Lexotan e Valiun, segundo uma pesquisa da IMS Health realizada entre 2009 e 2013. Isto significa 17 milhões de caixas vendidas e suspeita-se que este número continua crescendo acentuadamente.

Deste modo, nossa existência vai sendo medicalizada pois, junto a isso está o fato de que há uma grande ampliação do discurso médico para todos os ambientes sociais e áreas da vida; saber este que circula com status de verdade absoluta pela internet, pelos jornais, noticiários e propagandas televisivas, e que torna-se parte dos discursos cotidianos nas escolas, nos locais de trabalho e até nas mesas de bar.

Isto induz a que questões sociais sejam tratadas como problemas individuais e que a doença seja um aparente somatório de sintomas que pode ser tratado de maneira única e fora de qualquer contexto.

Professores, por exemplo, são impulsionados a obter informações médicas e conhecer os medicamentos mais utilizados para ajudar a diagnosticar alunos com problemas de aprendizado, de adaptação ao cotidiano da escola, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e outros.

As crianças são encaminhadas para avaliação e saem com diagnósticos prontos e receitas que devem ser seguidas pelos pais e acompanhadas pela escola para que se tenha a certeza de que a pobre criatura esteja aprendendo “corretamente”, do modo que está sendo ensinado, e também que esteja se adaptando a um cotidiano com normas questionáveis e geralmente não apropriado aos dias atuais. Não existem mais crianças levadas, existem crianças com TDAH e que tomam medicamentos conhecidos como Ritalina e Concerta, como sossega-leão para facilitar a vida de pais e professores.

Muitos psicólogos compactuam dando explicações superficiais que permitem a criação de discursos rasos e cotidianos, comumente utilizados totalmente fora de contexto e para qualquer caso, como: “ele é agressivo (ou hiperativo, ou depressivo ou...) porque a família é desestruturada (ou o pai é alcóolatra, ou a mãe é ausente, ou a avó não consegue educar, ou..)”.

Do mesmo modo que a maioria da população se considera técnica da seleção brasileira, agora também acredita ter bons conhecimentos de medicina e psicologia.

 

PRATICAR A ARTE DE VIVER

 

Embora a racionalidade do mercado tenha englobado a verdadeira liberdade de nossas escolhas, já que a todo momento somos bombardeados com propaganda sobre como devemos ser, o que vestir, comer, beber, querer e viver, faz-se necessário um esforço para resistir ao consumismo e à medicalização da vida.

  

 

 Se queremos realmente viver, não temos que temer ficar tristes de vez em quando ou assumir que temos dificuldade para entender um determinado assunto ou realizar alguma atividade.

 É preciso buscar um modo de estar no mundo que seja mais consciente, observar mais, ter um olhar mais atento, questionar nossas ideias e modos de agir para poder encontrar ações que possam levar a transformações em nosso corpo e em nossa alma, a intensificar nossas verdadeiras relações amorosas e sociais, a praticar nossa autonomia na arte de viver, sem concepções induzidas ou pré-fabricadas.

O modo de nos tornarmos mais livres das dores e medicamentos é conquistar nosso próprio conhecimento sobre quem somos e sobre aquilo que nos rodeia.

                                                                                                                                                                                       M Fatima Laranjeira