Quando psicologia e arte se encontram

 

From the Lake

“FROM THE LAKE No. 1

GEORGIA O’KEEF (1924)

 

 

 

O mundo pode ser percebido de diversas formas e isso varia em diferentes sociedades e de indivíduo para indivíduo, de acordo com o contexto em que vive e com as experiências anteriores que teve. Por isso é comum encontrarmos pessoas que são muito sensíveis e que experimentam tudo de forma intensa – seja alegre ou dolorosa – e outras que conseguem um certo distanciamento daquilo que está sendo percebido, conseguindo lidar com a questão de outro modo, algumas vezes mais tranquilo e outras mais frio. Também há pessoas que transitam entre um extremo e outro, aquelas que chamamos de “8 ou 80”, e que não conseguem encontrar um equilíbrio em sua forma de perceber o mundo que as rodeia.

                           

                                     A DANÇA - MATISSE               “A Dança” – Henry Matisse         

    O GRITO - MUNCH                                                                                                                                                                    “O grito” – Edvard Munch

 

 

Estas formas de perceber as coisas da vida, se não forem conscientes para a pessoa podem trazer muitos transtornos afetivos, familiares, profissionais e outros.

A arte e a psicologia, juntas, podem favorecer o reconhecimento dessas percepções e auxiliar no estabelecimento do equilíbrio, não no sentido de um ajustamento social ou a normas vigentes e sim na ampliação de opções nos modos de ver e viver, diminuindo inseguranças, culpas ou medos e permitindo a construção de melhores relações com outras pessoas e com a sociedade.

Nosso cérebro tem formas especiais de processar imagens e é preciso muito para enganá-lo e fazê-lo ver de forma diferente. Ele tenta organizar as formas, os cenários ou qualquer situação para dar um sentido racional àquilo que estamos vendo, sempre economizando tempo e energia. Para isso utiliza padrões de semelhança, proximidade, continuidade e outros, condicionando nossas percepções a padrões culturais e outros já preconcebidos.

  

                   A ÁRVORE VERMELHA - MONDRIAN   “A árvore vermelha” – Mondrian (1908)                                   

 

 A ÁRVORE CINZA - MONDRIAN                                                                                                                                                             “A árvore cinza” – Mondrian (1911)

ÁRVORES - MONDRIAN

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            “Árvores” – Mondrian (1912)

     A arte é uma atividade humana ligada às manifestações de ordem estética e que se realiza por meio de muitas linguagens isoladas ou combinadas entre si.Tem a capacidade de estimular áreas cerebrais relacionadas ao pensamento abstrato, isto é, nos afasta do excesso de racionalidade a que estamos submetidos constantemente. Ela favorece a proximidade com nossas sensibilidades, estimula nossa criatividade e aberturas em nosso inconsciente possibilitando a liberação de elementos que são de difícil conhecimento para nós mesmos.

Como manifestação da atividade humana, a arte é passível de ser apreciada também do ponto de vista psicológico (assim como do estético, do filosófico, do sociológico e outros). A psicologia da arte estuda diversos aspectos tanto da criação como da recepção humana aos fenômenos artísticos. São estudadas áreas como percepção, emoção, memória, pensamento, linguagem, criatividade, capacidade simbólica e também a arte como terapia.

                                           

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                                                                                                        “A Árvore da Vida” – Gustav Klimt (1904)

Tais estudos ocorrem porque as experiências de criação e de apreciação artísticas não dependem apenas da história, da obra de arte ou das técnicas usadas para a sua realização, mas também dos processos psicológicos aí envolvidos, sejam os cognitivos, emocionais, de aprendizagem, criatividade ou de percepção do mundo e de organização de suas experiências.

Podemos dar como exemplo o ato de criação de uma obra. Aquela pessoa que está criando vive um momento social específico, tem experiências que lhe são próprias e condições para criar que também lhe são particulares. Para esta criação ela necessita de uma estrutura material, mas também de um arcabouço imaginário. É um momento de inspiração, de excitação psíquica, de liberação de conteúdos ainda não despertados ou reprimidos.

É um ato de estar fazendo existir algo ainda não existido, é elaborar uma combinação de coisas externas com todo um mundo interno sem a utilização da linguagem discursiva. Deste modo, com um trabalho orientado para esse fim, é possível buscar compreender este ato de criação e quais são os principais elementos participantes dele.

O mesmo ocorre com outros processos relacionados à arte. No processo de recepção, por exemplo. No ato de observar e perceber uma obra, manifestam-se tanto elementos de nossa racionalidade como de nossas sensibilidades, e isto pode trazer à tona aspectos desconhecidos de nós mesmos. Faça suas próprias experiências observando, mesmo que seja pela internet, obras de grandes pintores ou músicas somente instrumentadas de artistas que você não costuma ouvir regularmente.

O que queremos dizer é que, embora seja necessário compreender a arte como algo que abrange aspectos cognitivos, do fazer e também expressão de perspectivas particulares daquele que cria ou recebe, a psicologia de visão mais ampla pode colaborar na compreensão tanto do processo criativo e expressivo, quanto da arte como uma função essencial do humano.