Viver não é sobreviver

 

THIAGO

    Thiago – Alter do Chão/PA -  julho/1012

 

         Um conhecido psicólogo[1] já disse, há algumas décadas, que não existe “uma” inteligência mas sim vários tipos de inteligência. Ele explicou que todos nascemos com potencial para desenvolvê-las porém, se isso será ou não ativado em nós dependerá da cultura em que estamos inseridos, das oportunidades que cada um terá de acessar essa cultura, daquilo que será oferecido pelo meio ambiente próximo (família, escola e outros), das experiências que realizamos e das escolhas que fazemos.

       Por exemplo, todos nós teríamos a capacidade lógico-matemática (raciocínio dedutivo para solução de problemas matemáticos, capacidade de abstração, avaliação e relações sobre questões lógicas, etc.), mas estas habilidades se desenvolveriam em maior ou menor grau dependendo de como isto estaria colocado em nosso país, pela nossa família, pela nossa escola ou pela experiência com nossos primeiros professores.

          O mesmo seria aplicável para nossa capacidade linguística, isto é o domínio verbal ou escrito das palavras, dos idiomas e o desejo de conhecê-los melhor e explorá-los, como ocorre com os escritores, linguistas ou poetas.

         Mas entre os vários tipos de inteligência citados por Gardner, duas chamam muito a atenção: a intrapessoal (capacidade do indivíduo se conhecer, compreender suas crenças, seus hábitos inconscientes, seu autocontrole, seus vícios e outros) e a interpessoal (habilidade para entender as motivações, as necessidades e os desejos do outro).

          Chamam a atenção, particularmente, porque a tônica dos dias atuais é que a inteligência no modo de viver está no fundo do poço.

      Nosso modo de estabelecer relações amorosas ou de qualquer tipo, de trabalhar, de conviver, de nos divertirmos ou de nos expressarmos está totalmente atrelado aos poderes estabelecidos. E tais poderes podem manter-se mais facilmente pois estamos cansados, vivendo entristecidos, ignorantes, submissos, ressentidos ou destilando ódios.

        E quanto mais nos entregamos às tristezas e jogamos sobre nós mesmos a culpa por não saber ou não conseguir viver adequadamente; quanto mais aceitamos sem questionar os modelos estabelecidos de como amar, falar ou convivermos com nosso corpo; quanto mais evitarmos pensar por nos sentirmos cansados e apenas aceitarmos emitir opiniões sobre posições já estabelecidas – mais estaremos nos aproximando da morte ou talvez, caminhando para viver a morte em vida.

         Porque o que estamos tentando dizer é que existe uma produção social da tristeza que nos torna mais vulneráveis a cada dia e que dificulta que a vida floresça em nós.

 

GUERNICA

Guernica – Pablo Picasso

 

Como somos entorpecidos pela organização social, tragados pela velocidade das coisas, distraídos pelas incessantes novidades tecnológicas e temos nossas experiências substituídas pelas interpretações na ficção, torna-se mais fácil reduzir nossa capacidade de viver e apenas buscar a sobrevivência, de forma pragmática.

Somos induzidos a crer que tudo tem que ter uma causa final, que só existimos porque há uma finalidade, que nossas ações sempre têm que ter algum fim pré-estabelecido.

Por tudo isso, nossa consciência está cada vez mais atrofiada, nossa ética diminuída ao tamanho atômico e o que pode haver de bom em nosso inconsciente fica impedido de se manifestar.

E isso é muito complicado para o nosso viver e também para o futuro da natureza e da humanidade. Precisamos incentivar o surgimento de uma outra consciência, com base no sensível, que não se submeta ao que nos deixa entorpecidos, às ficções que criam modelos e nos impedem de efetivamente viver. Precisamos dar espaço a pensamentos que venham de dentro de nós, a ações que não sejam apenas para competir e conquistar um lugar privilegiado no futuro.

A vida está aí para ser vivida, comemorada, cantada em prosa e verso. A vida é como a primavera, que não escolhe jardim para florescer. A vida está caminhando por aí, e como já disse o filósofo Amauri Ferreira, está fazendo tentativas através de nós para desabrochar e alegrar existências.

 

IPÊ AMARELO

 

Creio que permitir o crescimento da vida sensível em nós é o que pode ajudar no desenvolvimento de nossa inteligência intrapessoal, do conhecimento de nossos verdadeiros desejos e do que existe de melhor e mais criativo em nós.

E, de quebra, ainda podemos dar um salto em direção ao avanço de nossa inteligência interpessoal, compreendendo também as necessidades e desejos do outro, praticando um pouco de generosidade (tão escassa nesse pobre mundo), fazendo crescer nossos relacionamentos amorosos, familiares e de amizade, fazendo nossa parte na construção de uma sociedade melhor.

                                                                                                                          

                                                                                                                                            M FATIMA LARANJEIRA


 [1] GARDNER, Howard. Inteligências múltiplas, a teoria na prática. Porto Alegre: 2000.